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Artigo SPROWT | Nereyda Ah-Hoy

Quando a Consciência se Transforma em Acção
Olá querido/a leitor/a,
No artigo anterior, falei sobre autenticidade, sobre a importância de reconhecermos quem somos para além das expectativas dos outros e sobre a coragem necessária para vivermos de acordo com os nossos valores.
Mas existe uma diferença importante entre saber quem somos e ter a coragem de viver como quem somos.
E é precisamente aqui que começa uma parte ainda mais profunda desta jornada de auto-conhecimento que, a meu ver, é a base de tudo na vida.
Ao longo do meu trabalho como terapeuta, tenho acompanhado pessoas que, apesar de aparentemente terem uma vida “bem-sucedida”, carregam dentro de si uma sensação difícil de explicar: a sensação de não estarem a viver verdadeiramente a própria vida.
Por vezes, têm o emprego, a família, o estatuto ou a estabilidade que sempre desejaram ter. Mas, quando param para olhar para dentro, surge uma pergunta silenciosa:
“Será que esta vida que estou a viver é realmente minha?”
Esta pergunta pode ser desconfortável. Mas também pode ser extremamente transformadora!
Ser verdadeiro consigo mesmo não significa fazer tudo o que quer
Quando falamos em viver o nosso “eu mais verdadeiro”, existe o risco de confundirmos autenticidade com fazer apenas fazer aquilo que nos apetece.
Ser autêntico, como dito no artigo anterior, não significa agir impulsivamente, ignorar responsabilidades ou deixar de considerar os sentimentos das outras pessoas.
Significa, antes, desenvolver a capacidade de reconhecer o que pensamos, sentimos, valorizamos e desejamos e, a partir daí, fazer escolhas que sejam coerentes com essa consciência.
A autenticidade exige maturidade.
Por vezes, ser fiel a nós próprios significa dizer “sim”. Noutras situações, significa dizer “não”.
Pode significar mudar de caminho, de casa, de relacionamento, estabelecer um limite, abandonar uma expectativa que já não nos representa ou simplesmente admitir: “Isto já não faz sentido para mim.”
E nem sempre é fácil.
O preço de viver constantemente para corresponder
Muitas pessoas passam grande parte da vida a tentar corresponder.
Correspondem às expectativas da família, dos amigos, da sociedade, do ambiente profissional e, actualmente, também às imagens de sucesso que encontram diariamente nas redes sociais.
Aos poucos, começamos a perguntar:
“O que vão pensar de mim?”
“Será que vão aprovar o meu estilo de vida?”
“E se eu decepcionar alguém?”
“E se eu falhar?”
Quando estas perguntas passam a orientar demasiadas decisões, corremos o risco de deixar de perguntar:
“O que é realmente importante para mim?”
É neste ponto que podemos começar a afastar-nos de nós próprios.
Não acontece necessariamente de forma dramática. Muitas vezes acontece através de pequenas escolhas repetidas diariamente.
- Um “sim” quando queríamos dizer “não”.
- Uma opinião que não expressamos para evitar conflitos.
- Um sonho que adiamos porque parece pouco realista aos olhos dos outros.
- Um limite que não estabelecemos para não desiludir alguém.
- Uma profissão que mantemos porque representa segurança, mesmo quando já não encontramos significado nela.
Individualmente, podem parecer pequenas coisas. Mas, ao longo do tempo, podem criar uma distância significativa entre a vida que vivemos e a pessoa que sentimos que somos.
A coragem de escolher de dentro para fora
Viver de forma mais autêntica implica começar a fazer escolhas de dentro para fora, e não apenas de fora para dentro.
Ou seja, em vez de perguntar constantemente:
“O que esperam de mim?”
começamos a perguntar:
“Isto está alinhado aos meus valores?”
Esta mudança parece simples, mas pode transformar profundamente a nossa relação connosco próprios.
Na prática terapêutica, vejo muitas vezes como determinadas pessoas aprenderam a ser excelentes a cuidar dos outros, a resolver problemas, a corresponder e a manter tudo sob controlo — mas nunca aprenderam verdadeiramente a escutar-se, a cuidar de si mesmas.
E escutar-se é uma competência.
É preciso criar espaço interior para perceber o que estamos a sentir, reconhecer as nossas necessidades e distinguir aquilo que realmente queremos daquilo que aprendemos que deveríamos querer.
Autenticidade também exige limites
Uma das manifestações mais concretas de uma vida autêntica é a capacidade de estabelecer limites saudáveis.
Limites não são muros.
São formas de comunicar aquilo que podemos oferecer, aquilo que não podemos aceitar e aquilo de que precisamos para preservar o nosso equilíbrio.
Muitas pessoas sentem culpa quando começam a estabelecer limites, sobretudo quando passaram grande parte da vida a procurar aprovação.
Mas dizer “não” a algo que nos faz mal pode ser uma forma de dizer “sim” à nossa saúde emocional.
Da mesma forma, afastarmo-nos de determinadas relações, ambientes ou padrões não significa necessariamente falta de amor ou consideração.
Às vezes, significa simplesmente reconhecer que nem tudo aquilo que conseguimos suportar é aquilo que devemos continuar a suportar.
O eu verdadeiro também está em construção
Existe ainda algo que considero fundamental: o nosso eu autêntico não é uma identidade fixa.
Nós mudamos.
As experiências transformam-nos. As relações ensinam-nos. As perdas amadurecem-nos. Os desafios revelam capacidades que desconhecíamos. E aquilo que fazia sentido para nós há dez anos pode já não fazer sentido hoje.
Por isso, viver autenticamente não significa encontrar uma versão definitiva de nós próprios.
Significa ter disponibilidade para continuar a conhecer-nos.
É permitirmo-nos mudar sem sentir que estamos a trair quem fomos.
É reconhecer:
“Eu posso honrar a pessoa que fui sem ficar presa a ela.”
Esta é, para mim, uma das partes mais bonitas do processo de desenvolvimento pessoal e de auto-conhecimento.
Quando deixamos de procurar aprovação e começamos a procurar coerência
Uma vida autêntica não é necessariamente uma vida sem dificuldades.
Continuaremos a enfrentar críticas, rejeições, incertezas, perdas e momentos em que não saberemos exactamente o que fazer.
A diferença está na forma como nos posicionamos perante essas experiências.
Quando deixamos de colocar a aprovação dos outros no centro das nossas decisões, começamos a procurar algo mais profundo: coerência interna.
Pensar, sentir, escolher e agir de uma forma cada vez mais alinhada.
É essa coerência que pode trazer uma sensação maior de integridade e de paz interior.
E talvez seja esse um dos maiores presentes de viver de forma autêntica: não precisarmos de representar constantemente uma personagem para sermos aceites.
Podemos simplesmente SER.
Um exercício de honestidade consigo mesmo
Convido-lhe agora a fazer uma pequena pausa.
Pense na sua vida actual — no trabalho, nas relações, na família, nas escolhas que tem feito.
E pergunte-se:
“Onde estou a viver de acordo comigo e onde estou apenas a corresponder às expectativas dos outros?”
Não precisa de encontrar todas as respostas hoje.
Apenas precisa de começar a observar.
Porque a transformação nem sempre começa com uma grande decisão.
Muitas vezes começa com uma pequena tomada de consciência.
E, a partir dessa consciência, podemos começar a fazer escolhas diferentes.
Viver o seu eu mais verdadeiro
Talvez viver autenticamente não seja tornar-se uma pessoa completamente diferente.
Talvez seja, precisamente, deixar cair algumas das camadas que fomos construindo para sermos aceites, protegidos ou reconhecidos, até conseguirmos voltar a ouvir a nossa própria voz.
É um processo que exige consciência, coragem, compaixão e, muitas vezes, paciência.
E não precisamos de acertar sempre.
Eu própria acredito que viver autenticamente é uma prática diária. Há momentos em que conseguimos estar profundamente alinhados connosco e outros em que voltamos a procurar aprovação, a duvidar ou a afastar-nos temporariamente daquilo que sabemos ser importante.
O essencial é conseguirmos voltar.
Voltar a nós.
Voltar aos nossos valores.
Voltar àquilo que verdadeiramente importa.
Porque, no final, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Será que os outros gostam da pessoa que eu sou?”
Mas sim:
“Será que a pessoa que estou a ser é alguém com quem eu própria consigo viver em paz?”
E essa resposta merece ser descoberta com honestidade.
Conclusão
Para fechar este artigo, gostava de deixar as seguintes reflexões:
- Em que áreas da sua vida sente que está verdadeiramente a ser quem é — e em que áreas ainda sente necessidade de corresponder às expectativas dos outros?
- Que limites precisa de estabelecer ou que escolhas precisa de fazer para viver de forma mais coerente com os seus valores?
- Se começasse hoje a viver mais de acordo com aquilo que realmente sente, que valoriza e acredita, o que teria de mudar na sua vida?
Talvez as respostas a estas perguntas nos levem a uma outra questão, ainda mais profunda: o que nos impede de mudar, mesmo quando já sabemos que precisamos de mudar?
É sobre isso que iremos conversar no próximo artigo.
Até lá, continue a olhar para dentro. Às vezes, a resposta que procuramos começa por aquilo que finalmente temos coragem de ouvir dentro de nós.
Até breve!
