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Artigo SPROWT | Pascale Thivierge
Fortalecendo a Confiança Antes da Acção em Iniciativas Complexas de Desenvolvimento
No papel, tudo estava alinhado
Quando fomos convidados, como equipa de facilitação, para apoiar um projecto de desenvolvimento internacional neste país da América do Sul, o pedido parecia claro.
A liderança falava de uma necessidade de “realinhamento”. Os objectivos estavam definidos, e existia um acordo formal entre uma organização paraguaia e um doador internacional.
Tratava-se de um projecto multimilionário, estruturado e detalhado, com resultados esperados claramente estabelecidos.
Na fase preparatória, tudo se mantinha coeso.
No entanto, uma vez no terreno, e através de conversas com diferentes partes interessadas, emergiu uma realidade mais subtil.
Não se tratava de um sistema em falha. Mas de um sistema que podia ser fortalecido. E isso exigia confiança.
O que parece alinhado ainda pode ser fortalecido
O projecto reunia múltiplos actores:
- uma equipa de gestão local baseada na capital
- gestores intermédios e especialistas técnicos
- autoridades locais e nacionais
- um doador internacional
- e comunidades rurais em áreas remotas
Cada um operava dentro de constrangimentos reais, mas também com os seus próprios objectivos, motivações e uma intenção partilhada de sucesso do projecto. O alinhamento existia.
Mas nem sempre era partilhado da mesma forma. Persistiam mal-entendidos, e certas dinâmicas limitavam o pleno potencial da colaboração.
O desafio não era corrigir, mas fortalecer.
Começar onde as pessoas estão
Começámos numa comunidade rural, onde viviam os beneficiários do projecto. Eles não falavam espanhol. A sua realidade era muito diferente da dos actores na capital. Num projecto desta natureza, o seu envolvimento era central para o sucesso da iniciativa.
E era necessário encontrá-los onde estavam. Por isso, antes do programa, dedicámos tempo a reunir com o líder comunitário e um intérprete local, que se tornou nosso co-facilitador.
Este momento foi importante. Tratava-se de reconhecer a sua realidade, a sua estrutura e o seu papel.
Criar espaço para expressão genuína
Utilizámos abordagens de facilitação adaptadas ao seu contexto. Os participantes foram convidados a trazer um objecto que representasse quem eram.
Depois, convidámo-los a olhar para o futuro. Escolheram a imagem de um pássaro que conheciam bem. A pergunta era simples: “Se este pássaro estivesse a voar sobre a vossa comunidade daqui a dez anos, o que veria?”
Desenharam. Partilharam. Explicaram.
No início, houve hesitação. Depois surgiu o riso. E com ele, o envolvimento.
As pessoas começaram a ouvir, a fazer perguntas e a reconhecer-se no que os outros expressavam. Até as autoridades locais presentes ficaram tocadas pelo processo.
A confiança não surgiu da explicação. Emergiu através da experiência.
Quando o sistema se reúne, a complexidade torna-se visível
A segunda fase teve lugar na capital. Tratava-se de uma iniciativa estruturada, com responsabilidades claras e recursos comprometidos. As camadas de interacção eram múltiplas:
- liderança do projecto
- gestão intermédia
- especialistas técnicos
- autoridades locais
- a organização doadora
- e as comunidades
Cada um desempenhava um papel importante. E cada um trazia as suas próprias expectativas.
Na sala, o sistema completo estava presente. No entanto, algumas dinâmicas limitavam o fluxo de troca. As conversas aconteciam, mas o diálogo permanecia parcial.
Criar condições para a cooperação
Não procurámos abordar directamente as tensões. Em vez disso, concentrámo-nos na forma como as pessoas interagiam.
Através de abordagens estruturadas e participativas — pequenos grupos, rotações, discussões guiadas — criámos espaços onde as pessoas podiam envolver-se genuinamente.
Os participantes afastaram-se gradualmente da defesa de posições.
Começaram a contribuir em conjunto. As ligações fortaleceram-se. Surgiram trocas mais abertas. A mudança não foi imediata. Mas foi real.
A pressão para avançar rapidamente
Em iniciativas como esta — e, de forma mais ampla, em qualquer organização ou esforço que envolva múltiplas partes interessadas — a pressão para avançar rapidamente é constante. Há uma necessidade de apresentar resultados. De mostrar progresso.
Mas quando a compreensão não é plenamente partilhada, avançar demasiado rápido limita o impacto. Os planos permanecem técnicos, e planos técnicos não mobilizam pessoas.
Muitas vezes assumimos que a acção criará alinhamento. Na realidade, é o alinhamento que permite que a acção vá mais longe.
Conexão, clareza, acção
Quando as pessoas se reconectam, torna-se possível avançar de forma diferente.
Conexão primeiro. Clareza depois. Acção em terceiro lugar.
A partir daí, os papéis tornam-se mais claros. As responsabilidades são melhor compreendidas.
O plano de acção ganha uma qualidade diferente. Já não é apenas definido. É assumido.
Uma responsabilidade partilhada
Em sistemas como este, a confiança não pode residir apenas no topo. Deve existir em todos os níveis.
Todos têm um papel a desempenhar. Mas isso exige capacidades de: escuta; facilitação; e envolvimento dos outros.
Estas não são competências opcionais — são essenciais. Quando estão presentes, as pessoas fazem mais do que executar um projecto. Contribuem plenamente para ele.
Ir além dos resultados esperados
Fortalecer a cooperação não se resume a melhorar um projecto — permite que o trabalho vá mais longe.
Quando as pessoas se envolvem verdadeiramente, o resultado ultrapassa o que foi inicialmente planeado. Torna-se maior do que a soma das contribuições individuais