Artigo SPROWT | Nereyda Ah-Hoy

Nereyda Ah Hoy

Viver a Partir do Eu Autêntico: A Coragem de Ser Quem Realmente Somos

Uma das perguntas que mais frequentemente me fazem — seja no meu trabalho como terapeuta, em conversas sociais ou familiares — é:

“Como posso manter-me fiel a mim mesmo/a num mundo que constantemente espera que eu seja alguém diferente?”

Esta é uma pergunta que todos deveríamos fazer a nós próprios, todos os dias.

Quantos de nós estamos realmente a viver de forma autêntica? Quantos de nós temos a coragem de expressar quem verdadeiramente somos, em vez de sermos aquilo que a sociedade, as nossas famílias ou os nossos locais de trabalho esperam que sejamos?

A resposta pode ser mais reveladora do que imaginamos.

Vivemos numa época em que o sucesso é frequentemente medido pelo estatuto, pela produtividade e pela aprovação social. Muitas pessoas acabam por viver vidas que parecem impressionantes por fora, mas que, interiormente, são vazias.

Somos constantemente incentivados a corresponder às expectativas, a adaptar-nos às normas sociais e a perseguir objetivos que prometem felicidade. No entanto, apesar do progresso tecnológico e das inúmeras oportunidades materiais que temos hoje, os níveis de stress, ansiedade, burnout e solidão têm aumentado em todo o mundo.

Porquê?

Eu diria que uma possível resposta é que muitas pessoas foram-se desconectando do seu eu autêntico. Viver de forma autêntica não significa ser perfeito, rejeitar a sociedade ou agir com impulsividade. Significa alinhar os nossos valores, escolhas e comportamentos com aquilo que genuinamente somos.

É escolher viver com integridade e consciência de si e não deixar que o medo, ou a necessidade de aprovação determinem a nossa vida.

O Que É o Eu Autêntico?

O nosso eu autêntico é a expressão mais profunda de quem somos — os nossos valores, crenças, aspirações e personalidade existentes para além das expectativas externas e do condicionamento social.

Os psicólogos Michael Kernis e Brian Goldman descrevem a autenticidade através de quatro elementos:

  • Autoconsciência – compreender as nossas emoções, motivações, forças e limitações.
  • Auto-reflexão equilibrada – avaliarmo-nos de forma honesta, sem julgamentos excessivamente severos.
  • Comportamento autêntico – tomar decisões que reflectem os nossos valores, em vez de agirmos sob pressão externa.
  • Autenticidade relacional – construir relações baseadas na honestidade, abertura e confiança mútua.

Autenticidade não significa simplesmente “sermos nós próprios”. Significa escolher viver de acordo com os nossos valores mais profundos, mesmo quando isso exige coragem.

Porque Desconectamo-nos de Nós Próprios?

Eu, você e todos os outros não nascemos a fingir ser alguém diferente, certo?

Quando somos crianças, procuramos amor, segurança e pertença. Ao longo da vida, porém, as expectativas familiares, a educação, a religião, os ambientes profissionais e as normas sociais moldam as nossas crenças sobre aquilo em que “devemos” tornar-nos.

Muitas destas influências são importantes. Contudo, algumas podem ensinar-nos a reprimir partes de nós para obter aceitação social.

A Psicologia Humanista defende que o sofrimento emocional surge quando existe uma diferença entre a pessoa que realmente somos — o nosso eu real — e a pessoa que acreditamos que temos de ser — o nosso eu ideal. Quanto maior for esta distância, maior a probabilidade de experienciarmos ansiedade, stress crónico, insatisfação e aquela sensação persistente de que “falta algo”.

O mundo digital tende a amplificar este problema incentivando a comparação com versões cuidadosamente idealizadas da vida dos outros, tornando cada vez mais difícil distinguir as nossas aspirações daquelas que são moldadas pela influência externa.

O Que Diz a Ciência?

De acordo com a minha pesquisa, estudos no campo da psicologia têm demonstrado consistentemente que a autenticidade está fortemente associada ao bem-estar.

As pessoas que relatam viver de forma autêntica tendem, a apresentar:

  • Maior satisfação com a vida;
  • Maior autoestima e resiliência emocional;
  • Menores níveis de ansiedade e depressão;
  • Relações pessoais mais satisfatórias;
  • Maior bem-estar psicológico.

Quando as nossas decisões entram em conflito com os nossos valores mais profundos, o cérebro experiencia uma tensão interna chamada dissonância cognitiva, que aumenta o desconforto emocional e a fadiga mental. Por outro lado, quando as nossas acções estão alinhadas com os nossos valores pessoais, existe maior coerência interna e estabilidade emocional.

A Teoria da Autodeterminação, desenvolvida pelos psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, identifica três necessidades psicológicas universais essenciais para o bem-estar:

  • Autonomia – sentir que as nossas escolhas são verdadeiramente nossas.
  • Competência – acreditar que somos capazes de crescer, desenvolver-nos e contribuir.
  • Relacionamento – estabelecer ligações significativas com os outros.

Então, O Que Nos Impede de Viver Autenticamente?

Embora a autenticidade possa parecer simples, vivê-la na prática é bastante desafiante.

Medo da Rejeição

Enquanto seres humanos, estamos biologicamente preparados para procurar ligação e pertença. O medo da exclusão leva-nos a esconder as nossas opiniões, emoções ou ambições simplesmente para nos integrarmos.

Perfeccionismo

Ao longo do meu trabalho, tenho observado como o perfeccionismo contribui para níveis mais elevados de ansiedade, depressão e burnout, sobretudo quando associamos o nosso valor à necessidade de alcançar um desempenho impecável — algo que, enquanto seres humanos, é impossível manter.

Crenças Limitantes

Muitas pessoas carregam inconscientemente crenças como:

  • “Eu não sou suficientemente boa.”
  • “Tenho de agradar a toda a gente.”
  • “O sucesso determina o meu valor.”

Estas crenças influenciam as nossas escolhas, relações e autoconfiança muito antes de nos apercebermos da sua existência.

Viver em Piloto Automático

A nossa vida moderna é exigente e acelerada. Sem momentos regulares de reflexão, podemos continuar a seguir rotinas ou relações desalinhadas com a pessoa em que nos tornámos.

E aqui surje uma das perguntas mais importantes da nossa jornada:

Estou realmente a viver a minha vida — ou simplesmente a viver a vida que esperam que eu viva?

Os Benefícios de Viver de Forma Autêntica

Pessoalmente, tenho procurado viver sempre de forma autêntica. Mas garanto-vos que escolher a autenticidade não elimina os desafios da vida. 

Muda, sim, a forma como respondemos a esses desafios.

Melhor Saúde Mental

Viver de forma consistente com os nossos valores ajuda a reduzir o conflito interno, o desgaste emocional e a necessidade constante de validação externa. Quando aquilo que pensamos, sentimos e fazemos está alinhado com aquilo em que acreditamos, experienciamos uma maior sensação de coerência e equilíbrio interior.

Relações Mais Fortes

A autenticidade gera confiança, comunicar honestamente permite-nos estabelecer ligações emocionais mais profundas e relações mais saudáveis. Quando nos permitimos ser genuínos, criamos espaço para que os outros façam o mesmo.

Maior Resiliência

Quem compreende os seus valores consegue lidar melhor com os obstáculos e recuperar mais rápido perante as adversidades, porque a sua identidade está enraizada no propósito e nos valores que as orientam, e não nas circunstâncias externas.

Motivação Mais Sustentável

Os objectivos ligados a um significado pessoal geram uma motivação mais forte e duradoura do que aqueles impulsionados pelo reconhecimento ou aprovação dos outros.

Liderança Autêntica

Estudos demonstram que líderes autênticos inspiram maior confiança, envolvimento e colaboração. A coerência entre aquilo que dizem e aquilo que fazem contribui para criar ambientes onde as pessoas sentem-se seguras para participar, partilhar e inovar. Um líder autêntico age de acordo com os seus valores, assume responsabilidade pelas suas escolhas e relaciona-se com os outros de forma genuína.

Cinco Formas Práticas de Viver de Forma Mais Autêntica

Tenho experienciado que a autenticidade fortalece-se através de hábitos diários e não necessariamente através de grandes mudanças na nossa vida.

Abaixo partilho algumas sugestões práticas:

  1. Desenvolva a Sua Autoconsciência

Pergunte a si próprio:

  • O que me traz genuinamente energia?
  • Quando é que me sinto verdadeiramente eu?
  • Que decisões tenho tomado para obter aprovação, em vez de realização pessoal?

Escrever num diário, praticar mindfulness e reservar momentos de reflexão são ferramentas poderosas para desenvolver a autoconsciência. 

Quanto melhor nos conhecemos, mais facilmente distinguimos aquilo que realmente queremos daquilo que aprendemos que deveríamos querer.

  1. Clarifique os Seus Valores Fundamentais

Os nossos valores funcionam como uma bússola interna, incluindo integridade, compaixão, família, liberdade, crescimento pessoal entre outros. 

Conhecê-los torna as decisões difíceis mais claras, porque passamos a ter uma referência interna para orientar as nossas escolhas.

  1. Pratique a Autocompaixão

A autenticidade não exige perfeição. Somos seres humanos. Erramos, aprendemos, mudamos de opinião e atravessamos fases diferentes ao longo da vida. Tratar-nos com gentileza perante os nossos erros contribui para uma maior resiliência, bem-estar emocional e motivação para continuar a crescer.

  1. Crie Limites Saudáveis

Por vezes, viver de forma autêntica significa simplesmente dizer “não”.

Proteger o nosso tempo, a nossa energia e o nosso bem-estar emocional permite-nos honrar aquilo que realmente importa. Estabelecer limites significa reconhecer que também temos responsabilidades para connosco.

  1. Escolha o Crescimento em Vez da Aprovação

Cada decisão significativa apresenta-nos uma escolha:

Vou agir a partir do medo — ou a partir dos meus valores?

Sempre que escolhemos o alinhamento interior em vez da aprovação externa, fortalecemos a nossa identidade autêntica. A opinião dos outros deixa de ser o principal factor a determinar quem somos e as escolhas que fazemos.

A Autenticidade É Uma Prática Para Toda a Vida

Preciso de dizer-vos uma verdade:

Ninguém vive de forma autêntica todos os dias.

As mudanças na vida, a incerteza e as pressões sociais irão continuar a testar o nosso alinhamento connosco. A autenticidade consiste em voltar repetidamente à pessoa que verdadeiramente somos.

É preciso honestidade para reconhecer os momentos em que nos afastámos de nós e coragem para fazer escolhas diferentes. E é preciso compaixão para aceitar que o crescimento é um processo que dura toda a vida.

Concluindo:

Viver a partir do nosso eu autêntico é uma das maiores dádivas que podemos oferecer-nos e às pessoas que nos rodeiam.

Num mundo que frequentemente recompensa a conformidade, escolher a autenticidade é um acto de coragem.

Devemos deixar de perguntar:“Quem é que os outros querem que eu seja?” e começar a perguntar: “Quem sou eu?”

Perguntas de Reflexão

Gostaria de convidar-vos a reflectirem honestamente sobre as perguntas abaixo.

  1. Se ninguém o julgasse, que escolhas faria de forma diferente na sua vida hoje?
  2. Que crenças ou hábitos aceitou simplesmente porque lhe foram transmitidos, em vez de reflectirem verdadeiramente quem é?
  3. Quanto da sua vida diária é orientado pelos seus próprios valores e quanto é conduzido pela necessidade de aprovação, ou aceitação?

Estas perguntas não precisam de ser respondidas imediatamente. 

O importante é começar a escutar aquilo que existe dentro de si.

Até ao próximo artigo!