SPROWT Article | Maricy Vieira

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Uma abordagem ecológica e sustentável em Saúde Pública

Em 50 anos, a população mundial mais que duplicou e tivemos um ganho de esperança de vida de pelo menos 20 anos. A população mundial estava projetada para atingir 8 bilhões em 15 de novembro de 2022. Essas últimas projeções das Nações Unidas sugerem que a população global pode crescer para cerca de 8,5 bilhões em 2030, 9,7 bilhões em 2050 e 10,4 bilhões em 2100. Esse crescimento populacional é causado em parte pela queda nos níveis de mortalidade, refletida no aumento dos níveis de expectativa de vida ao nascer. Globalmente, a expectativa de vida atingiu 72,8 anos em 2019, um aumento de quase 9 anos desde 1990. Prevê-se que novas reduções na mortalidade resultem em uma longevidade média de cerca de 77,2 anos globalmente em 2050.

Portanto o idoso “vive mais e com melhor qualidade de vida graças às várias conquistas no campo da medicina como o tratamento com sucesso de muitos tipos de câncer, a melhoria no tratamento de doenças crónicas; e a taxa de mortalidade infantil de menores de 5 anos foi diminuindo com advento das vacinas.

Indíscutivelmente, uma das variáveis de grande impacto na saúde púbica foi o saneamento, o acesso a água potável. Outra variável foi proteger o indivíduo e prevenir o aparecimento de doenças com antibióticos e imunização. O acesso à informação favorecendo a mudança sociocomportamental, e o estabelecimento de diretrizes importantes nas políticas de saúde pública também fizeram toda a diferença. Portanto a combinação dessas variáveis, desde tecnologias até mudanças sociais, permitem cada vez mais que se deslumbre um futuro próspero e longínquo. Mas será mesmo?

Será que já parámos para refletir qual está sendo “o preço pago” para vislumbrarmos esse futuro próspero e longínquo?

Estamos saindo de uma pandemia com vacinas e medicamentos obtidos graças a ciência, o trabalho incansável dos profissionais de saúde e o esforço coletivo de todo o planeta, isso é indiscutível. Por outro lado, estamos causando um impacto no meio ambiente que ainda não conseguimos sequer mensurar. Cada máscara jogada no lixo, cada insumo utilizado, a logística de assegurar vacinas às populações mais remotas, enfim, criamos uma pressão sem precedentes nos recursos naturais. Atingimos o ápice onde a insustentabilidade está se tornando uma ameaça para a saúde humana. O ar que respiramos, os alimentos que comemos e a água que bebemos são as condições básicas que precisamos assegurar para termos SAÚDE. E nem estamos colocando nessa balança o peso dos conflitos, crise de refugiados, perdas de habitação, pobreza, desastres naturais e tantos outros mais desafios mundo afora que afetam à saúde de uma comunidade de forma devastadora.

Sabemos que a Saúde Pública sempre militou em prol da saúde e do acesso universal à mesma. Esse sempre foi objetivo de qualquer plano estratégico de saúde, do combate à malária, a erradicação da paralisia infantil ou à cura de uma doença. E agora, mais do que nunca, tem que considerar um componente que nem sempre esteve no ápice dos programas de saúde que é a SUSTENTABILIDADE. O que quero salientar é que: a sustentabilidade tem que ser considerada primordial em qualquer intervenção, ou programa de saúde a ser planejado. Um exemplo rotineiro para mim, como farmacêutica, era o excedente de embalagens de papel que eram necessárias serem retiradas dos medicamentos antiretrovirais antes de se entregar para os pacientes numa Farmácia da Unidade Sanitária. Caso contrário, muitas vezes o próprio paciente jogava fora gerando um impacto muito grande na limpeza nos arredores do Centro de Saúde e da sua própria comunidade. Otimizar a embalagem de medicamentos e as estratégias de reciclagem são essenciais, principalmente quando sabemos que aquele paciente vai tomar o medicamento a vida toda. Outro exemplo bem simples e aplicável ao nosso dia a dia seria como associar a alimentação saudável e a sustentabilidade: rever a recomendação de fonte proteica (origem bovina) na dieta não somente por causa da ingestão de colesterol e gordura, mas também considerando a importância na diminuição de gases no efeito estufa. E, ao mesmo tempo, não aumentar excessivamente o consumo de carne branca tendo em mente o consumo moderado de peixes de modo evitar a escassez. Será que podemos fazer isso?

O desafio é grande, mas a saúde pública tem que se antecipar e prever quais serão as prioridades de ação sempre, mas sem nunca desconsiderar a sustentabilidade em cada etapa delineada num programa ou estratégia de promoção de saúde. E qual nosso papel nesse processo? A sociedade civil tem que se reorganizar em prol da mesma também, em diferentes esferas, mudar o comportamento imediatista e sermos vigilantes permanentes das ações governamentais para remodelar o sistema organizacional das cidades. Temos que ser membros ativos num processo de reeducação e também disseminadores da sustentabilidade.

Termos a consciência que não é o sufixo -ite, das doenças (gastrite, sinusite, poliomielite) que nos ameaça, mas sim o prefixo -in, da insustentabilidade! E o remédio para a cura será o COMPROMETIMENTO de cada um de nós para termos um futuro promissor.