Artigo SPROWT | Nádia Ahmad

Nadia Ahmad

Temos Talento. Falta Sistema

Espera-se que as pessoas aprendam, cresçam e contribuam. Muitas correspondem a essa expectativa, mas isso nem sempre se traduz em oportunidade ou influência. Todos já vimos isto acontecer: esforço sem progressão, aprendizagem sem oportunidade, talento sem voz. Porque acontece isto com tanta frequência? Porque as pessoas adaptam-se mais depressa do que os sistemas concebidos para tirar partido do seu talento.

Ao longo dos anos, tenho visto o mesmo padrão repetir-se: pessoas capazes, motivadas, com percursos académicos sólidos, e instituições que têm dificuldade em reconhecê-las e desenvolvê-las. Quem nunca viu um colaborador de elevado desempenho em quem se confia, mas que nunca é formalmente reconhecido? Equipas cheias de potencial, mas com pouco espaço para agir? Recém-licenciados contratados pela sua especialização, apenas para perceberem que essa especialização raramente é utilizada? Estas situações são familiares e dizem mais sobre o funcionamento dos sistemas do que sobre a capacidade individual.

O que varia de contexto para contexto não é a qualidade das pessoas, mas a capacidade das instituições para reconhecer, absorver e desenvolver esse talento. Essa distinção moldou a forma como penso sobre o investimento nas pessoas.

É por isso que as discussões sobre investir nas pessoas falham tantas vezes o alvo. O foco vira-se rapidamente para a educação: mais escolas, mais cursos, mais certificações. O acesso é importante, claro, mas raramente é aí que reside o problema. Tenho visto pessoas altamente qualificadas e motivadas ficarem frustradas não por falta de competências, mas porque as instituições onde entram não estão preparadas para as utilizar. A aprendizagem é incentivada em teoria, mas permanece desligada da forma como o trabalho é organizado e como as decisões são tomadas.

Cada vez mais, o que conta não é uma qualificação estática, mas a capacidade de continuar a aprender e a adaptar-se ao longo do tempo. Ainda assim, muitas organizações promovem, e por vezes exigem, aprendizagem contínua, permanecendo presas a processos rígidos que deixam pouco espaço para a sua aplicação. Quando a aprendizagem não se traduz em oportunidade, responsabilidade ou progressão, não cria valor. Cria frustração. Isto reflete menos uma falha da educação em si e mais uma questão de qualidade da liderança, capacidade organizacional e capacidade para identificar e responder às reais necessidades do mercado de trabalho.

É por isso que as lacunas de talento devem ser entendidas sobretudo como um problema económico e organizacional, e não como um desafio que possa ser resolvido apenas através da educação. Quando as pessoas não conseguem aplicar as suas competências de forma produtiva, as organizações perdem eficiência, a inovação abranda e a confiança institucional deteriora-se. Com o tempo, isto fragiliza também o valor percebido da própria educação. O custo deste desfasamento é muitas vezes invisível, mas sente-se de forma profunda no desempenho, na motivação e na sustentabilidade a longo prazo.

Visto a este nível, a questão deixa de ser se formamos pessoas suficientes e passa a ser se os nossos sistemas conseguem trabalhar em conjunto para transformar a educação em valor sustentado. É aqui que as escolhas de liderança e o desenho institucional se tornam decisivos. Determinam não só a forma como as organizações funcionam internamente, mas também como se articulam com o ecossistema mais alargado à sua volta.

Este desafio raramente se esgota numa única organização. Quando as pessoas são encaradas como ativos a desenvolver e não apenas como recursos a gerir, torna-se evidente que o talento não pode ser construído nem sustentado de forma isolada. Educação, trabalho e progressão estão ligados na prática e, quando não estão alinhados, o investimento nas pessoas gera pouco retorno. Quando o alinhamento existe, esse mesmo investimento produz impacto cumulativo e duradouro.

Então, o que impede o talento de se transformar em ação? O facto de as instituições, muitas vezes, privilegiarem a rapidez ou o controlo em detrimento da aprendizagem e da adaptação. Tenho observado este padrão repetidamente: em organizações privadas de ritmo acelerado, a pressão de curto prazo restringe a tomada de decisão; em contextos públicos e institucionais, estruturas rígidas e processos lentos limitam mesmo pessoas altamente qualificadas.

Num contexto específico, observei profissionais altamente competentes progressivamente condicionados por estilos de gestão excessivamente controladores e por uma ausência persistente de escuta por parte da liderança, com impacto direto na sua motivação. Era uma equipa contratada pela sua especialização, criatividade e sentido crítico, a trabalhar sob uma liderança altamente analítica e centralizada. A supervisão estratégica e analítica concentrava-se no topo e até escolhas criativas de menor dimensão eram filtradas para aprovação. As reuniões passaram a centrar-se no alinhamento e não na exploração. As ideias eram discutidas e refinadas, mas a iniciativa deu lugar à cautela. Com o tempo, a motivação esmoreceu, não por falta de competência ou empenho, mas porque o sistema deixou claro que o seu critério não era necessário nem valorizado. Nesse momento, tornou-se evidente que o problema não era a capacidade, mas o sistema em redor.

Momentos como este ajudam a explicar porque persistem lacunas de talento mesmo em contextos onde os níveis de educação são elevados e o investimento em formação é significativo. Quando os sistemas não conseguem transformar capacidade em ação, o retorno desse investimento diminui rapidamente. As competências ficam subutilizadas, o potencial desperdiça-se e as organizações perdem, de forma gradual, a capacidade de adaptação e desempenho.

Se o desafio reside na forma como os sistemas transformam capacidade em ação, então não pode ser resolvido por uma única instituição a atuar isoladamente.

As parcerias entre o setor público, as organizações privadas e as fundações são relevantes porque nenhuma instituição controla todo o percurso do talento. Fazem a diferença apenas quando ultrapassam projetos isolados e colaborações simbólicas, ajudando a ligar educação, trabalho e progressão na prática. Tenho visto parcerias funcionar quando a formação é co-desenhada com empregadores, assegura rigor académico e é integrada em organizações dispostas a adaptar funções, processos de decisão e percursos de carreira, permitindo que as novas competências sejam efetivamente utilizadas. Nestes casos, os parceiros investem não apenas em formação, mas também em liderança, governação e capacidade organizacional, disponibilizando também às pessoas ferramentas digitais que lhes permitem aplicar e partilhar novas competências no trabalho do dia a dia. Sem este enfoque mais amplo, mesmo iniciativas bem desenhadas têm dificuldade em perdurar.

Uma coisa é clara: investir nas pessoas é frequentemente apresentado como um imperativo moral. E é. Mas não se trata apenas de boas intenções. É também uma decisão estratégica. O que muitas vezes falta é a disponibilidade das instituições para mudar a forma como escutam, decidem e criam espaço para que o talento atue. Ao não o fazerem, limitam ativamente o seu próprio futuro. O talento existe em todo o lado. A verdadeira questão é saber se as nossas instituições estão preparadas para tirar o melhor partido dele.