SPROWT Article | Assane Sidi

Assane 1 scaled 1

A felicidade e o nosso propósito, residem no caminho e não são um fim em si mesmo.

A nossa busca é e sempre será pelo nosso propósito, que está fundamentalmente na coragem de sermos quem nós somos, sendo que o nosso propósito é o nosso “Dharma”, ou seja, a nossa forma de conexão com o Universo. Somos nós os primeiros e últimos responsáveis pelo nosso propósito, desdobrando-o em acções diárias na busca pelo mesmo. Diferenciemos então entre propósito maior e propósito(s), sendo que os propósitos são esses desdobramentos que
nos levam ao nosso propósito maior.

O propósito maior está directamente relacionado por um lado, com o auto-reconhecimento de quem somos, das nossas origens e no conquistarmos a nós próprios, e por outro com a capacidade que temos de trabalhar para a realização do propósito dos outros (prestação de serviço ao próximo). Está no dar e receber, continuamente e sendo sempre grato.

O nosso propósito é realizado através das palavras, atitudes e intuição. A conjugação destas três realidades intrinsecamente ligadas uma a outra é o fio condutor das relações humanas. A palavra tem uma força indescritível, quando proferida tanto pode construir como destruir, e após dita, não há forma de voltar. As atitudes definem quem realmente somos na prática, apesar das palavras. A capacidade de intuir (intuição do latim intuitus, que significa “ver interiormente”) permite-nos escapar da disputa racional vs. emocional. Sejamos nós mesmos, pelas nossas atitudes, garantindo que as palavras sejam coerentes e ambas alinhadas com a
nossa intuição.

No meu percurso de vida, onde vivi 5 anos longe de casa, dos familiares e amigos, percebi que os meus propósitos, tiveram de readaptar-se e adequar-se a um novo modus-vivendi, por forma a alcançar o meu propósito maior. E assim se repetiu no meu regresso a Moçambique, onde mais uma vez os propósitos tiveram de realinhar-se, ou seja, era impossível realizar os propósitos usando as mesmas palavras e tendo as mesmas atitudes, não estaria em harmonia com a intuição e estaria desalinhado do propósito maior. E desta experiência, intui que o nosso propósito maior é único e imutável, mas os nossos propósitos vão se adaptando consoante os estágios da vida e as pessoas com quem nos relacionamos, sendo isso um processo iteractivo. O maior desafio do ser humano é viver em sociedade, pois é nesse processo que percebemos e intuímos o que deve ser transformado em nós, dessas diferentes etapas e processos da vida, cito Sri Prem Baba: “Precisamos encontrar um ponto de equilíbrio. É preciso haver um equilíbrio entre mente e coração, razão e intuição, pois isso é o que nos torna capazes de transcender nossas limitações e realizar o nosso potencial".

Somos feitos de passado, presente e futuro, num contexto de vida em sociedade, sem nunca esquecer que só vivemos verdadeiramente o presente. Tudo se resume a uma ampulheta onde a areia que caiu é o passado, facto consumado, a que está por cair é o futuro, sabemos que existe, mas não temos controle sobre ele e no fim verdadeiramente o que conta é o agora, ou seja, os grãos de areia que passam lentamente no meio da ampulheta. Vivemos muitas vezes a ansiedade, excesso de
futuro ou com traumas e arrependimentos, excesso de passado. E estes comportamentos, desfocados de viver o presente, afectam negativamente os nossos propósitos e a forma como o buscamos.

Há fases na vida, onde desequilíbrios externos, afectam o nosso trinómio (Palavra-Atitude-Intuição), com isso falamos o que não devemos, agimos como não devíamos e corremos o risco de perder quem mais amamos ou colocamos em causa os nossos propósitos, e consequentemente o alcançar do nosso propósito maior. Mas não podemos esquecer que o propósito maior continua lá, ele faz parte de nós, é o nosso “Dharma”. É importante perdoar a nós mesmos resinificando o passado através da
compreensão sobre o que se passou e nos curando dessa dor, respeitando o processo e encontrando novos propósitos que nos permitam alcançar o propósito maior. Nem todos os dias serão positivos e é normal que assim seja.

Em suma, tudo se resume ao caminho, ou seja, aos nossos propósitos e a forma como os vamos adaptando consoante as fases da vida. O alcance do nosso propósito maior e da plenitude, é e deve ser uma utopia, há sempre arestas por limar e realidades por aperfeiçoar. Sem nunca esqueceer que a vida acontece nos propósitos, re-significando o passado, vivendo o presente e não temendo o futuro.